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3.7.08

Para quem quiser assistir
Esta é a chamada do programa Patrola, que vai ao ar neste sábado, dia 5, na RBS TV, às 11:30hs.
“O cara tem a melhor profissão do mundo pra descobrir histórias. E resolveu publicar todas elas num blog, que já virou livro e coluna de jornal. Ele é Mauro Castro, mais conhecido como o taxista blogueiro”.
Se eu conseguir gravar, posto aqui mais tarde.

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30.6.08

30 de junho de 1958
Só quando foi preencher o recibo que o passageiro lhe pediu é que o taxista se deu conta que aquele dia não era um dia qualquer. Ele, que sempre foi tão bom em guardar datas, parecia querer esquecer o que aquele dia significava. Era o dia 30 de junho de 2008. O amigo taxista completava, na data, 50 anos de trabalho!
O passageiro não entendia o que estava acontecendo. O velho taxista ficara imóvel. A mão, que preenchia o recibo, não se movia mais, parou exatamente no meio da data. Impaciente, o sujeito lembrou ao taxista que estavam em junho. Pediu que ele terminasse logo com aquilo. De posse do recibo, o passageiro foi-se, maldizendo a velhice.
Sozinho no carro, o taxista recostou a cabeça grisalha no apoio do banco, fechou os olhos e suspirou. Lembrava do primeiro dia em que sentara-se ao volante de um táxi. Recém saído do serviço militar, ele era um jovem à procura de emprego. Conseguiu uma vaga de chofer de praça, que era a expressão usada à época.
Em um Chevrolet 51, fez sua primeira corrida, do Bairro Azenha até o Mercado Público. Corria o ano de 1958. Dia 30 de junho. Exatos 50 anos!
Foi no táxi que conheceu sua mulher. Ainda trabalhando como empregado, montou sua casa e casou-se. Vieram os filhos. Tempos difíceis.
Mais tarde, ganhou as placas e comprou seu próprio táxi. Quando as coisas pareciam melhorar, veio a doença da mulher e a viuvez. Acabou de criar os filhos sozinho. Pagou-lhes até a faculdade com o dinheiro ganho na praça. Estão feitos na vida.
Ainda com o talão de recibos na mão, na solidão do seu carro, o velho taxista sentiu-se mais cansado do que nunca. Não havia muito a comemorar. Com os filhos morando longe, ele saía pouco de casa, tinha poucos amigos. O trabalho no táxi era o que lhe valia. Mas mesmo aquilo, agora, parecia não valer muito a pena.
Quando, finalmente, bateu arranque, foi para recolher o táxi para a garagem. Passou o resto do dia na companhia de uma silenciosa garrafa de vinho. Cinquenta anos é muito tempo.

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26.6.08

Lançamento do livro - Feira do Livro 2006

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23.6.08

Diário de uma taxista
A mulher, na calçada, fez sinal para o táxi da Sandra, para o que parecia ser só mais uma corrida. Ela trazia uma criança no colo e outra pela mão. A passageira embarcou com as crianças, no banco de trás, e fechou a porta. Quando minha colega foi arrancar, surgiu um homem correndo e postou-se na frente do táxi.
Sandrinha é uma taxista experiente. De imediato, trancou as portas e fechou os vidros. O homem, visivelmente alterado, queria embarcar junto na corrida.
Com alguma relutância, a passageira ordenou que minha colega abrisse a porta do táxi. Disse que o homem era seu marido, o pai das crianças. Se ele fazia questão, ela o levaria junto. Sandra, então, deixou o homem entrar. Ele embarcou no banco da frente.
Tão logo a corrida teve início, começou a discussão entre o casal. Algo a ver com a guarda dos filhos. As crianças, no banco de trás, começaram a chorar. A situação ficou crítica. A esposa, indignada, começou a botar os podres do marido para fora. Ela dirigia-se à minha colega, como se procurasse amparo para suas reclamações.
Em um determinado momento, o homem pediu licença para a taxista ao seu lado, virou-se para trás e, jogando o corpo entre os bancos, acertou um soco direto no rosto da mulher. Estabeleceu-se o pânico.
Por coincidência, no momento da agressão, eles passavam em frente ao Palácio da Polícia. Sandrinha não teve dúvida: jogou o táxi sobre a calçada, bem em frente à porta do plantão, e saiu correndo em busca de socorro. Os policiais detiveram o sujeito.
Sandra colocou-se à disposição da passageira para servir de testemunha do ocorrido. Constrangida, a mulher agradeceu, mas disse que não prestaria queixa do homem, pois o amava muito.
Sandrinha, minha colega do prefixo 2413, é uma taxista de muitas histórias. Esta é uma das que ela menos gosta de lembrar.

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16.6.08

Porto Alegre 4°C
O radiorrelógio liga: seis da manhã. É agora ou nunca. Com alguma dificuldade, consigo me livrar das cobertas que me abraçam. Lá fora, faz 4°C. O vento faz a sensação térmica despencar. Virgem Nossa Senhora!
Depois de um café encorpado, pego meus apetrechos e vou para a rua. Lá fora, o Moacir, meu motorista da noite, me espera passando o olho no Diário Gaúcho. Peço o jornal e confiro a página central: uma atriz da Rede Globo posa seminua. Com esse frio!
Vamos nessa. Preciso levar o Moacir em casa. Em frente ao Hospital São Pedro, o gramado está branco de geada. Uma fina camada de vapor paira sobre o terreno. Ao fundo, o velho hospital psiquiátrico parece ainda mais sinistro.
Deixo meu motora no alto do Morro Santa Tereza. De lá, a visão da cidade é surreal. A capital está coberta por uma densa neblina, só o topo dos prédios mais altos aparece. Digno de uma foto. Não tenho tempo, o serviço me espera lá embaixo.
Chego no ponto com o rádio anunciando 6°C. Três carros já estão na minha frente. Dentro deles, três colegas encolhidos de frio. Pego o pano e vou secar meu táxi, que dormiu na rua e está todo molhado de sereno.
Um mendigo, que passou a noite sob a marquise do prédio da esquina, acorda, saca uma garrafa de cachaça e começa um discurso. Parece irritado. Seu casaco se move na altura da barriga. Será que tudo aquilo é fome? Não, ele abre o fecho e tira de dentro da roupa um filhote de vira-latas. O bichano se espreguiça, cheira a roda dos táxis e faz xixi. Eu o espanto. Ele, então, volta para o mendigo, parece querer voltar para o ventre do dono.
Torço bem o pano e seco as mãos geladas. Já estou na ponta. Logo aparece a primeira corrida, os primeiros raios de sol...
O rádio anuncia nove, dez, 12°C. A manhã avança com o taxímetro batendo. O dia será longo e o inverno mais ainda.

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9.6.08

Uma corrida delicada
Eu dirigia distraído quando o passageiro fez sinal. Parei por instinto, nem sequer analisei a figura do homem que me atacava. Não costumo recusar corrida, mas, depois que parei, pensei que seria melhor que tivesse seguido em frente. Além de mal vestido, o sujeito estava sujo, barba por fazer. Duvidei até que tivesse dinheiro para me pagar a corrida.
Ele entrou apressado. Pediu que tocasse rápido para uma vila próxima dali, um lugar barra-pesada, onde taxistas costumam não entrar. Senti o drama. O que lhe dava certo crédito era o fato de estar carregando algumas sacolas de supermercado. Alguém que fosse assaltar um táxi não estaria com aquela carga.
Assim que acomodou as sacolas no chão, o homem me mostrou seus pulsos. Fez questão que eu visse os machucados deixados pelas algemas. Eram cortes cicatrizados, marcas feias, de quem deve ter resistido à prisão. Disse que já havia sido preso várias vezes. Falou que é ladrão e que não tinha problemas em falar, mas não aceita ser perseguido por algo que não fez.
Ele contou que estava no mercado fazendo compras e notou que o segurança do estabelecimento o estava seguindo - por causa da sua aparência, de certo, pensavam que ia roubar alguma coisa. Meu passageiro, então, disse que esperou um vacilo do segurança e lhe aplicou um soco na cara. O homem caiu nocauteado.
No burburinho que se seguiu, fez questão de pagar as compras para uma caixa apavorada. Divertido, contou que a menina tremia tanto que mal conseguia digitar os valores dos produtos. Para sua sorte, meu táxi apareceu antes da viatura da polícia.
Levei-o até a tal vila. Ele ainda exigiu que eu subisse um beco estreito, até onde o táxi cabia. Mostrou-me o barraco em que mora, no alto do beco. Disse que poderia procurá-lo caso tivesse algum problema naquela vila. Agradeci comovido.
Depois de me pagar, puxou um cigarro que trazia atrás da orelha, acendeu-o e se foi com suas compras. Somente então consegui soltar a respiração.

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2.6.08

O taxista e a suicida
A passageira já entrou aos prantos no táxi do Eliseu. Olhos vermelhos, lágrimas em abundância. Chorava convulsivamente. Meu colega ficou na dúvida se falava alguma coisa. Achou melhor deixar rolar. Ela, então, pediu que ele a levasse até a Usina do Gasômetro.
A corrida deu R$ 12. A mulher, entre soluços, entregou ao taxista uma nota de R$ 50 e mandou que ele ficasse com o troco. Eliseu, espantado com o tamanho da gorjeta, tratou logo de guardar a nota em sua pochete. Era fim de mês, o serviço estava fraco e aquele dinheiro vinha na hora certa. Mas a curiosidade falou mais alto e, enquanto a mulher descia do táxi, ele resolveu perguntar o motivo do choro e de ela não querer o troco.
Ela foi direta: disse que tinha vindo até ali para se jogar de cima da usina, para se matar! Dito isso, bateu a porta do táxi, girou sobre os calcanhares e partiu rumo ao suicídio.
Eliseu ainda pensou em não se meter. Era um taxista, tinha feito a corrida, ganhado uma gorjeta e fim. Não tinha nada a ver com o fato de a passageira querer se matar. Mas a mulher parecia decidida, e ele não podia ficar ali simplesmente esperando que ela se jogasse lá de cima. Além do mais, não parecia alto o suficiente. O máximo que ela conseguiria seria se machucar toda. Resolveu intervir.
Alcançou-a já no terraço da usina. Puxou-a pelo braço, trouxe-a de volta à razão. Tiveram uma longa conversa. O pôr-do-sol do Guaíba ilustrando o improvisado discurso do taxista sobre a beleza da vida.
Dissuadida da idéia, a mulher acabou voltando para o táxi. Eliseu levou-a de volta para casa e a fez prometer que não pensaria mais em besteira. Ao perguntar, pela última vez, se ela ficaria bem, o taxista ouviu um último pedido de sua passageira:
- Já que não vou mais morrer, será que o senhor poderia devolver meu troco?

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26.5.08

Estudantes em apuros
A estudante de Direito da Unisinos pegou meu táxi no campus da Ufrgs. Disse que veio à Capital apresentar seu trabalho de conclusão a uma banca de professores, mas estava nervosa demais. A menina estava pálida, suando frio, achei que fosse desmaiar.
Aconselhei que procurasse um médico. Ela falou que não precisava, que sempre ficava assim quando estava sob pressão. Pediu que eu a levasse até a Cidade Baixa, onde mora uma prima sua. Disse que tomaria alguma coisa para se acalmar e descansaria um pouco, até a hora da apresentação.
Deixei-a em um sobrado na Rua João Alfredo, onde sua prima já a aguardava na porta. Combinei de pegá-la dali a uma hora para levá-la de volta à Ufrgs.
Uma hora depois, quando tornou a entrar em meu táxi, a garota estava pior do que antes. Graças a uma dose cavalar de tranqüilizantes, ministrada por sua prima, minha jovem passageira ficara grogue, a ponto de não falar coisa com coisa. Estava sonolenta, mal conseguia articular as palavras. Tive que ajudá-la a afivelar o cinto de segurança. Sua apresentação deve ter sido, no mínimo, interessante de assistir.
Outro caso foi com uma estudante de Engenharia, freguesa do nosso ponto. Como trabalha à tarde, ela entra madrugada adentro montando as maquetes que precisa levar para a faculdade pela manhã. Com o sacolejar do táxi, as peças das maquetes costumavam descolar, pondo o trabalho a perder. Isso até ela descobrir uma cola que resolveu o problema crônico de aderência das maquetes: a cola de sapateiro!
Em uma manhã dessas, apareceu no ponto, maquete em punho, atrasada como sempre. Notei que havia algo diferente no seu caminhar. Quando entrou no táxi, percebi que seus olhos estavam vermelhos. Ela disse que estava muito louca, chapada mesmo. E que precisava largar a maldita cola ou, em vez de projetar pontes, acabaria morando embaixo de uma.

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19.5.08

A garota que esnobou Ronaldinho Gaúcho
Ronaldinho Gaúcho está com sua carreira no futebol em baixa. Os jornais apontam como culpados o excesso de festas, as más companhias, um desequilíbrio emocional pelo qual o jogador estaria passando. Há quem diga que lhe falte, na verdade, um amor.
Dia desses, em meu táxi, um passageiro me contou uma história incrível. Ele disse que tem uma vizinha que foi namorada de Ronaldinho, na época em que ele era apenas um jovem aspirante das categorias de base do Grêmio.
Segundo meu passageiro, o namoro tinha tudo para dar certo. A mãe do jogador fazia gosto, bajulava a garota. Ronaldinho, por sua vez, arrastava um trem pela menina, fazia todas as suas vontades, era só paixão.
Mas o coração tem lá seus caprichos. E a alma feminina, tão arguta, às vezes também chuta a bola pela linha de fundo. Acontece que a garota amava outro. Um rapaz bem mais bonito, segundo o passageiro que me contou a história. Assim, a menina seguiu a direção que apontava seu coração. Casou-se com o outro, alugou um barraco na Vila Buraco Quente e foi viver com seu amado - um esforçado instalador de TV a cabo.
O tempo passou. Ronaldinho tornou-se um milionário astro do futebol mundial enquanto a garota toca, como pode, sua dura vida na encosta do Morro Santa Tereza.
Meu passageiro contou que sua vizinha tornou-se fanática por futebol. Graças a um decodificador pirata, instalado pelo marido, não perde um jogo sequer do campeonato espanhol. Torce por qualquer time que jogue contra o time de Ronaldinho.
Agora que o sucesso do jogador dá sinais de já ter batido no teto, a garota da Vila Buraco Quente deve estar menos angustiada, menos infeliz com sua escolha.
Para ela, que apostou na paixão pelo marido, deve ser um consolo ver seu antigo namorado fracassando por falta de um grande amor.

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12.5.08

Dona Liná faz cem anos
Tenho uma passageira que está prestes a completar cem anos! A dona Liná. É uma baianinha simpática e faceira, que veio parar no Sul por caprichos do destino. Seus olhinhos ganham ainda mais brilho quando fala das suas memórias. Para quem gosta de uma boa história, é um prato cheio.
Ela me conta casos da sua infância, vivida nas fazendas do seu pai, próspero plantador de tabaco no sertão baiano. Explicou que as melhores folhas colhidas eram enroladas nas coxas das negras empregadas da fazenda. Reza a lenda que o suor das negras era o responsável pela alta qualidade dos charutos baianos.
Revelou também que seu gosto pela leitura vem da sua época de casada. Seu marido trabalhava com venda de livros na Bahia. Disse que o esposo fez um bom dinheiro vendendo livros a metro. Isso mesmo!
Falou que os coronéis, que faziam fortuna com o cacau, precisavam decorar as paredes dos seus gabinetes com livros. Para tanto, compravam tantos metros de livros quanto medissem suas estantes. O conteúdo das obras não importava muito. Quanto mais grossas e bonitas as lombadas, melhor. Por esse critério, meu livro fininho (menos de 1cm de lombada) seria um fiasco completo.
Ruy Barbosa é o escritor preferido de dona Liná. Ela ficou desapontada ao saber que nunca li nada desse autor. Falei que prefiro escritores mais atuais. Ela, então, perguntou se eu lia o "jovem" Humberto de Campos. Quando respondi que também não li nada dele, ela sentenciou, contrariada e sarcástica:
- Um escritor que não lê... Aposto que do Bocage você conhece bem a obra.
Assim é dona Liná, minha centenária passageira. Sua filha está preparando uma grande festa de aniversário. Espero ser convidado. Faço questão de ajudar a apagar essas cem velinhas!

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5.5.08

Ser taxista é...
Ser taxista é padecer no ponto da Valparaíso. É aguardar, por horas, um passageiro e aceitar, com um sorriso, quando ele diz: "É uma corridinha curta, hem!". É engraxar os pneus do táxi, deixá-los bem pretinhos para, em seguida, pegar uma corrida para a única rua embarrada da cidade. É deixar o carro limpinho, cheiroso e recebê-lo fedendo a cigarro do motorista da noite. É atacar-se da rinite quando aquela velhinha embarca com a roupa cheirando a mofo e naftalina. Ser taxista é suportar a fumaça dos escapamentos, a poluição do ar, o ruído das motocicletas. É dobrar o retrovisor do táxi para que este não seja quebrado pelos motoboys.
Ser taxista é contar a féria após cada corrida, na esperança que dê cria. É fazer a média de consumo cada vez que abastece. É sofrer para achar as moedinhas do troco daquela passageira que acabou de dar R$ 1 de esmola para o achacador da sinaleira. Ser taxista é fazer uma corrida para o outro lado da cidade e não pegar nem resfriado na volta.
Ser taxista é ser psicólogo, conselheiro, carregador de sacolas, guia turístico, consultor de moda ("O senhor acha que esse chapéu me cai bem?"). Ser taxista é não correr muito, ou ir mais rápido, porque o passageiro está atrasado. É ir pelo caminho mais curto, evitar os congestionamentos. Ser taxista é cair em congestionamentos. Ser taxista é tentar ganhar tempo avançando o sinal amarelo, retornando onde não pode, excedendo a velocidade. Ser taxista é ser multado.
Ser taxista é fazer calos nas mãos, sonhando com uma direção hidráulica.
Ser taxista é pendurar um rosário no retrovisor, é mandar benzer o carro, é fazer o sinal da cruz antes de engatar a primeira marcha do dia. Ser taxista é ser assaltado, perder a féria, o relógio, o celular, o táxi, ser humilhado, ter o traseiro chutado e ainda considerar-se um cara de sorte por conseguir voltar vivo para casa.

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28.4.08

Típica cena gaúcha
Um gaúcho ataca um táxi (só os gaúchos "atacam" os táxis). O táxi passa um pouco do gaúcho, pois vinha embalado, descendo uma lomba (só no Rio Grande do Sul os aclives chamam-se "lomba"). O gaúcho, então, corre até o táxi (tarefa ingrata para quem está usando chapéu, bombacha e botas).
O gaúcho embarca pela porta da frente (em Buenos Aires, tentei embarcar pela frente em um táxi e deparei com o cachorro do taxista instalado no banco. Ele explicou que leva o cão ali porque ninguém usa o banco dianteiro). O gaúcho embarca e apresenta-se, enquanto aperta a mão do taxista (um típico aperto de mão gaudério). Ele atrapalha-se para colocar o cinto, pois traz nas mãos uma garrafa térmica e uma cuia de chimarrão (desnecessário dizer que só gaúchos tomam chimarrão).
O gaúcho pede que o taxista leve-o até o Museu de Artes do Rio Grande do Sul (certa vez, um turista me disse que só os taxistas da capital gaúcha sabem a localização dos museus da cidade). Aliás, vale lembrar que essa cena, além de gaúcha, é tipicamente porto-alegrense, já que se passou em um "laranjinha" (apelido que os táxis de Porto Alegre recebem graças à sua cor).
O chimarrão do gaúcho estava curto como coice de porco (é sabido que gaúchos da Capital não sabem encilhar um chimarrão decente). Assim, para matar a sede, o taxista pede um mate enquanto espera que o sinal abra (gaúchos são os únicos que tomam água quente para aplacar o calor).
Da calçada, a cena é observada por um "azulzinho" (apelido dos agentes de trânsito da capital gaúcha). Ele fica na dúvida se multa o taxista, que está com a cuia na mão (o Código Brasileiro de Trânsito não prevê este tipo de cena). Acaba deixando pra lá, pois o taxista devolve a cuia antes que abra a sinaleira (farol, semáforo).
A corrida custa dez pilas (dinheiro gaúcho). O passageiro desce e o taxista aproveita para escrever esta crônica (taxista metido a escritor é outra invenção gaúcha).

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22.4.08

Taxitramas na tevê

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21.4.08

O caso do dinheiro sujo
Era um rapaz magro, óculos escuros. Vestia uma camiseta de mangas longas e uma bermuda comprida cheia de bolsos. Pediu que tocasse para o Hospital de Clínicas. Logo que partimos, pegou o telefone e iniciou uma ligação.
Começou falando calmamente. Disse que resolvera não esperar mais, que estava indo para o hospital. Falava em tom baixo, com a mão sobre o celular, talvez, na esperança que eu não ouvisse o que dizia. Falou que a "coisa" estava purgando, crescendo, espalhando-se, que, se continuasse daquele jeito, em breve, não poderia mais sair para a rua.
Com o canto do olho, eu procurava no rapaz algum sinal do problema ao qual ele se referia. À medida que a ligação se desenrolava, meu passageiro começou a irritar-se. Recusou a companhia da pessoa com quem estava falando ao celular:
- Você nunca está comigo quando eu preciso mesmo!
Esbravejou alguns insultos e, antes de encerrar a ligação, prometeu que, se a "coisa" fosse contagiosa, voltava a ligar.
Abri um pouco o vidro do táxi. Subitamente, o ar me pareceu carregado.
Perturbado, meu passageiro parecia distante. Balançava negativamente a cabeça, como se discutisse consigo mesmo. Notei que esfregava a virilha, como se a bermuda estivesse lhe machucando alguma ferida. O tal problema devia estar por ali.
Tive que avisá-lo que tínhamos chegado. Ele desculpou-se e começou a procurar o dinheiro para pagar a corrida. Primeiro em um bolso da bermuda, depois, noutro. Torci para que a grana não estivesse naqueles bolsos infectos. Infelizmente, estava.
Para meu desespero, ele puxou uma nota de vinte e me ofereceu. Minha imaginação fértil, às vezes, é um problema: a cédula me pareceu úmida, gosmenta, esverdeada até! Fingindo estar providenciando o troco, pedi que deixasse o dinheiro sobre o painel.
Com a ponta dos dedos, passei a nota ao primeiro pedinte de sinaleira. Espantado com a minha generosidade, o pobre homem sorriu e tascou um baita beijo no dinheiro.
Virgem Maria santíssima!

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14.4.08

Olhos negros como a noite
Minha passageira era uma mulher bela. Mesmo com visual discreto, usando um tailleur sóbrio, era impossível não notar o corpo bem desenhado que trazia sob a aparência executiva. Logo que embarcou, inundou o táxi com um perfume suave, certamente caro como a roupa que vestia.
Já era tarde, a noite avançava morna e abafada. Eu trabalhava além da conta. Como aquela corrida me levaria rumo ao meu bairro, aproveitaria a oportunidade para encerrar a jornada. Minha passageira também parecia cansada. Os cílios longos pendiam sobre seus olhos negros. Dois trabalhadores em busca do fim do dia.
Tudo aconteceu muito rápido. Um ou dois minutos. Para mim e minha passageira, no entanto, foi como se tivesse durado uma eternidade.
Eu havia parado o táxi. A mulher procurava na bolsa o dinheiro para pagar a corrida. Subitamente fomos surpreendidos pelo som de uma freada forte. De dentro de um carro, que parou atravessado em frente ao meu táxi, saltaram dois homens correndo.
Um deles ficou apontando uma arma em minha direção, exigindo que eu lhe passasse o dinheiro. O outro abriu a porta traseira e puxou a passageira para fora. Depois de lhe tirar a bolsa, o homem passou a revistá-la em busca de mais alguma coisa.
Foi quando a situação, que já parecia terrível, começou a ganhar contornos trágicos: não contente com o que havia pegado da mulher, o bandido passou a apalpar-lhe o corpo, insinuando que gostaria de levá-la consigo.
Um terceiro assaltante, que ficara ao volante do carro, começou a acelerar e gritar para seus comparsas. O homem que apontava a arma para mim correu para o carro gritando para que seu companheiro fizesse o mesmo. Por fim, os três partiram sem levar a mulher.
Depois do choque de violência, ficou o silêncio. A perplexidade. Os olhos da mulher me pareceram ainda mais cansados, mais negros que aquela noite abafada.

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7.4.08

Quem entende as mulheres?
O casal vinha discutindo calçada afora. A mulher, bolsa no ombro, caminhando rápido, quase correndo. O homem vinha no seu encalço, gritando, quase encostado no ouvido dela. Ele era forte, quase gordo, cabelo amassado como se tivesse acordado há pouco. Quando chegaram ao ponto, ele impediu que ela subisse no táxi.
Estávamos só eu e o Carlão no ponto. O carro da ponta era o meu. Fiquei na minha, eles que se entendessem. Mas o Carlão, ao meu lado, não parecia demonstrar a mesma calma. Vi que o sangue lhe subia à cabeça.
Enquanto o casal discutia, veio um passageiro e eu saí. O Carlão foi pra ponta. Temi pelo pior. Não deu outra. Mais tarde, encontrei meu colega todo lanhado, com cara de quem tomou chá de losna sem açúcar. Ele me contou o que havia acontecido.
Disse que a mulher havia apanhado do namorado, por isto, havia decidido ir embora. O homem não aceitava a decisão, gritava e a segurava pelo braço com violência. O Carlão, que assistia a tudo, foi ficando cada vez mais incomodado. Decidiu que, se a mulher resolvesse embarcar no táxi, ela embarcaria. Mesmo que, para isso, ele precisasse dar uns chega-pra-lá no namorado dela.
Foi justamente o que aconteceu. Quando ela se desvencilhou do namorado e correu em direção ao táxi, o homem agarrou-a pelos cabelos. Carlão disse que não pensou duas vezes: puxou o sujeito pela camisa e prendeu-lhe a mão na cara. O homem testavilhou e foi ao chão, o sangue já principiando a brotar na boca.
Parecia que seria mais fácil do que Carlão imaginara. O homem ficou acuado, não esboçou reação. Isso até a mulher partir para cima do meu colega aos socos e aos pontapés. Quando viu a namorada vir em sua defesa, o homem também partiu pra cima do Carlão, que acabou apanhando até dizer chega.
Ficou a lição: em briga de marido e mulher, taxista não mete a colher.

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31.3.08

Uma caixinha de surpresas
Eu já escrevi mais de uma vez sobre as coisas esquecidas/perdidas no meu táxi - desde os populares guarda-chuvas e carteiras até uma dentadura e uma cobra. Atualmente, encabeçam a lista dos mais esquecidos os escorregadios telefones celulares.
A Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) tem um setor de achados e perdidos para onde os taxistas devem enviar os objetos deixados dentro dos táxis. Deve ter de tudo lá. Mas nem sempre é o caso de enviar o objeto à EPTC.
Dia desses, um colega meu achou no banco traseiro do seu táxi uma singela caixinha de fósforos. Como não fuma, jogou a caixinha dentro do porta-luvas e tocou em frente. Não pensou mais nela.
No outro dia, uma equipe da EPTC passou em seu ponto para fazer uma fiscalização de rotina nos táxis. Esse meu colega era o último da fila. Depois de vistoriados todos os táxis, os três agentes de trânsito que faziam o trabalho reuniram-se entorno do carro do meu colega para bater um papo. Foi quando um deles, puxando um cigarro, perguntou se ele tinha fogo. Prontamente, o taxista abriu o porta-luvas e alcançou ao agente a caixinha de fósforos que havia achado no dia anterior.
Muitos taxistas de Porto Alegre sabem o verdadeiro fim desta história, que foi muito comentada na praça. Caso você não conheça o caso, vou lhe dar três opções de final.
Final 1: o agente abriu a caixinha, tirou um fósforo e, ao tentar acender o cigarro, deu início a um incêndio no táxi do meu colega, que estava com o gás vazando.
Final 2: dentro da caixinha havia três comprimidos de Viagra. Todos caíram na risada, e meu colega é ridicularizado até hoje por conta do episódio.
Final 3: a caixinha continha várias pedras de crack, meu colega teve o táxi apreendido pelo agente e corre o risco de perder sua concessão.
A vida é mesmo cheia de surpresas!

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24.3.08

Rodízio de veículos, já!
Dia desses, fui convidado a participar de um programa da Rádio Gaúcha, o Polêmica, no qual se pretendia discutir o rodízio de veículos em Porto Alegre. Um projeto nos moldes do que já acontece em São Paulo. Meus colegas de debate eram o vereador que propôs o projeto, um diretor da EPTC (Empresa pública de Transporte e Circulação), um engenheiro e um advogado, além do apresentador, é claro.
Depois de uma emocionada explanação do vereador, defendendo sua idéia, começaram a falar os outros debatedores. Logo ficou claro que todos eram contra o projeto, inclusive o apresentador do programa. Senti que as esperanças do vereador de encontrar algum apoio recaíram sobre mim, que ainda não tinha falado. Menos por convicção e mais por implicância, resolvi ficar com a minoria: o vereador.
O diretor da EPTC falou que a solução do trânsito da cidade seria uma mudança de cultura quanto ao uso do automóvel. Ou seja, a culpa pelas tranqueiras seria dos cidadãos que só sabem andar de carro. Eu o chamei de romântico, no ar. Pegou mal.
Na verdade, ele está certo. O romantismo está em pensar que isso se dará pela conscientização espontânea. A mudança de cultura, infelizmente, tem que ser na marra, com medidas mais radicais, como, por exemplo, o rodízio.
Depois do programa, fiquei matutando e acho que vou apresentar uma emenda ao projeto do ilustre vereador. Em vez de um rodízio por final de placas, vou sugerir uma fórmula mais justa. Em minha proposta, o critério seria a COR do veículo. Para não dizerem que estaria legislando em causa própria, incluiria no rodízio, inclusive, os táxis!
Seria assim: de segunda a sexta-feira, só rodariam pelas ruas de Porto Alegre os veículos da cor laranja, com uma faixa azul na lateral. Nos dias restantes, circulariam os carros de outras cores. Perfeito!
Depois dessa, duvido que me chamem novamente para algum debate.

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17.3.08

Família, negócios e paixões
Celinho nunca quis trabalhar no táxi. Quando seu pai aposentou-se e foi morar na praia, deixou o táxi para ele, de papel passado e tudo. Queria que o filho tivesse como se sustentar. Celinho agradeceu, mas preferiu deixar um motorista trabalhando. Nunca sentou ao volante do carro.
O rapaz queria seguir a carreira artística. O táxi serviu-lhe para pagar a faculdade de Belas Artes. Foi na faculdade, aliás, que Celinho conheceu Suzi, balconista da cantina. Foi paixão à primeira vista. Depois de um rápido namoro, perdidamente apaixonado, Celinho resolveu convidar a garota para morar com ele. Logo em seguida, casaram-se.
A carreira artística de Celinho nunca decolou. Suzi, por sua vez, sem qualificação profissional, perdeu o emprego. Mas o casal vivia feliz e apaixonado, mesmo porque, no final do mês, o táxi pagava as contas.
Os problemas começaram quando o empregado de Celinho resolveu abandonar o trabalho no táxi. Uma mulher candidatou-se à vaga. Antônia. Ela era bem recomendada, trabalhava havia muitos anos na praça. Jamais havia batido um táxi e era boa de féria. Ficou com o emprego.
Negligenciando a recomendação de não misturar negócios com amizade, Celinho e Suzi passaram a receber Antônia na casa deles. Mais do que uma funcionária, a taxista tornou-se amiga íntima do casal. Íntima demais, aliás.
Quando sua pequena Suzi saiu de casa para morar com Antônia, Celinho entrou em parafuso. Não conseguia viver sem sua amada. Implorou que ela voltasse. A jovem impôs uma condição: voltaria com Antônia. Morariam os três juntos! Condição aceita.
Até onde sei, vivem felizes. Até mesmo a dificuldade de Suzi para engravidar foi contornada. Antônia terá que parar temporariamente de dirigir o táxi: está nos últimos meses de gravidez.

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13.3.08

Uma corrida para Portugal!
Os amigos do Taxitramas estão convidados a conhecer o Pnethomem, um site português onde 7 cronistas são convidados a escrever o que lhes passar pela cabeça - um autor para cada dia da semana. Dentre os aquinhoados com tal honraria está este humilde blogueiro que vos digita.
Para ler a íntegra das crônicas (e deixar um comentário, por favor) é necessário um rápido e gratuito cadastro.
Apareçam por lá!

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10.3.08

Memórias de um atrapalhado
O primeiro táxi em que trabalhei era um modelo Fiat 147. Famoso pela imprecisão do seu câmbio. A alavanca de mudanças era frouxa, o infeliz motorista tinha que achar as marchas meio na sorte.
Eu estava parado no ponto da Zero Hora, na esquina da Avenida Ipiranga. Uma passageira embarcou e pediu que eu voltasse pela mesma rua. Para isso, eu precisava atravessar o carro na entrada da rua, fazer a manobra e voltar. Esperei uma folga no trânsito e atravessei o carro na esquina. Mas quem disse que eu achava a marcha a ré?
Quanto mais os carros se acumulavam à minha volta e começavam a buzinar, mais eu ficava nervoso e menos atinava engatar a marcha. O suor escorria, o câmbio arranhava e a passageira dava sinais de abandonar o táxi. Por sorte, uns pedestres que passavam se compadeceram e empurraram o táxi para trás. Maior mico!
Já o meu colega Carlão contou que, no primeiro dia de trabalho, chegou ao ponto ainda de madrugada. A rua estava deserta. Ele percorreu todo o ponto e estacionou o táxi...no fim da fila. Virado na contramão!
Mais tarde, chegou um colega e parou no local correto, no outro extremo do ponto, junto à placa de embarque. Carlão disse que ficou frio. Esperou o colega sair. Só então, mais que depressa, manobrou seu táxi e colocou na ponta.
No ponto da Puc, em uma época em que quase todos os táxis eram Fusca, aconteceu que o Forquilha pegou um balde dágua e começou a lavar as rodas do carro do seu Pinho, pensando que era o seu. O verdadeiro dono do carro ficou quieto, observando o trabalho.
Somente depois de secar as rodas, quando foi pegar a graxa para passar nos pneus, é que o Forquilha se deu conta do engano. A essa altura, seu Pinho já havia avisado os colegas, que riam a não poder mais.
O atrapalhado feliz é aquele que consegue rir de si próprio. Eu, pelo menos, tento.

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3.3.08

A fortuna que eu ganho
A passageira mais linda do ponto embarcou no meu táxi. Uma morena de parar o trânsito. Em determinado ponto da corrida, sem mais nem menos, ela me saiu com a seguinte frase:
- Mauro, sabe que, uma noite dessas, perdi o sono por tua causa?
Bah, quase bati o carro! Virei-me para ela com o coração aos pulos, pronto para me declarar seu escravo, quando a morena tratou de esclarecer a questão:
- Eu tenho o hábito de ler para esperar o sono. Nessa noite eu comecei a ler o teu livro. Li uma, duas, três páginas. Quando vi, tinha chegado à última folha e o dia já amanhecia. Uma delícia, parabéns!
Outro relato gratificante foi o da Sara, que mora em Florianópolis. Ela comprou o meu livro pela Internet e escreveu o seguinte em seu blog:
"Chego do trabalho, morta de cansaço, hoje não foi um dia bom. Verifico minhas correspondências e que surpresa! Junto a três envelopes e a um jornal publicitário, lá está a minha encomenda! Oba!
Abro o pacote, observo o vermelho, o branco e as finas listras azuis, leio a capa, a contra capa, o verso, folheio rapidamente e não sei por onde começar...
Penso: qualquer página! Abro na 120, "Conforto espiritual", apesar do título ser duvidoso pro meu gosto literário e eu ainda estar em pé com os saltos comendo meus calcanhares, inicio a leitura. Quando termino, nossa! Foi isso que eu disse bem baixinho:
- Nossa!
Esparramo-me no sofá, leio aleatoriamente pelo menos mais umas quatro páginas e acabo atrasando o jantar... Divertido e inteligente - Taxitramas, diário de um taxista, de Mauro Castro - acertada aquisição."
Quando me perguntam se ganho alguma coisa com meus escritos, costumo dizer que sim, que sou regiamente remunerado. É que, para mim, depoimentos como esses valem uma fortuna.

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25.2.08

Em busca da verdade
A passageira embarcou apressada, perguntando se eu conhecia um certo motel da Zona Sul da Capital. Pediu que eu tocasse para lá, o mais rápido possível.
Estava visivelmente tensa. Quando seu celular tocou, ela levou um susto.
Sua conversa ao telefone começou a esclarecer a situação. Ela estava indo ao motel dar um flagrante em alguém. Antes de encerrar a ligação, falou que não queria testemunhas, que queria apenas ver com seus próprios olhos e ponto final. Sem escândalos.
Chegando ao motel, ela pediu que eu estacionasse em frente. Perguntou se seria possível esperar alguns minutos ali, dentro do táxi. Disse que me recompensaria a gentileza. Depois de me certificar que ela não estava armada e que não me meteria em confusão, concordei em aguardar.
Os primeiros momentos foram constrangedores. Logo, porém, ela desatou a falar.
Disse que seu marido a estava traindo. Que sua mãe a tinha alertado desde o princípio, mas que ela julgava tratar-se de implicância de sogra e genro. Por fim, decidiu contratar um detetive - o homem com quem falara ao telefone. Ele garantiu que o marido dela tinha entrado com uma mulher naquele motel.
E ali estávamos nós, em uma cena que, creiam, é mais comum do que se imagina.
Quando o carro do marido surgiu no portão, ela o interpelou. O homem, atordoado, desceu do automóvel e fez menção de abraçar a mulher, que chorava compulsivamente. Depois, parece ter-se arrependido, embarcou novamente no carro e saiu em disparada, deixando minha passageira abandonada na calçada.
De volta ao táxi, perguntei para onde ela queria que eu a levasse, para a casa da mãe, talvez. Foi quando ela revelou o que a tinha deixado tão abalada:
A mulher que estava no carro com o marido dela era, justamente, a sua mãe!

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18.2.08

O barulhinho no táxi
Um barulhinho apareceu no táxi do Pitoco. Um barulhinho de nada, besta, quase imperceptível. É que taxista passa o dia todo no carro. Amanhece, dorme, come no carro. Acaba sendo parte do carro, sentindo qualquer vibração estranha, qualquer alteração que o carro apresente. Qualquer barulhinho. Mesmo o mais besta.
Pitoco não era de dar bola para essas coisas, continuou trabalhando normal. O barulho parecia vir da suspensão, como uma borracha gasta ou algo assim. Cada vez que torcia a direção para a esquerda, o barulhinho aparecia. Um estalido chato, persistente, repetitivo. Somente quando virava para a esquerda.
Ao passar na oficina para revisar a geometria, Pitoco pediu que o mecânico procurasse o problema. Nada. Nem sinal do barulho. Pitoco saiu encucado. Que diabos estaria provocando aquele estalido? Resolveu procurar outro mecânico. Nova inspeção e nada de anormal detectado no táxi.
O barulho começou a tirar Pitoco do sério. Um plequepleque chato, agudo. O som parecia bater bem dentro da cabeça do taxista. Parecia que todas as curvas da cidade eram para a esquerda. Todas as ruas que Pitoco dobrava eram para esquerda. Se ele perguntava para o passageiro que direção tomar: esquerda. E pleque!
Cada vez que iniciava um giro do volante, Pitoco preparava-se para o barulho. Semicerrava os olhos, apertava com mais força a direção, prendia a respiração. Sofria por antecipação, aguardando o pleque. E depois do pleque sofria mais ainda. Uma tortura.
O caminhão parou de repente. Pitoco vinha em alta velocidade. Vinha pela pista da direita, junto ao meio-fio. Não adiantava frear. A única saída seria desviar o táxi para a esquerda.
Pitoco morreu com grande estardalhaço, mas sem o pleque.

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11.2.08

Receita de omelete ambulante
O Jovita era um motorista que costumava tirar folgas nos táxis do meu ponto. Era um sujeito querido, mas tinha um problema grave: vivia dormindo. Há quem diga que ele dormia até em pé, encostado nas paredes.
Certa vez, trabalhando no carro do Zé Barriga, Jovita pegou uma corrida para a praia de Tramandaí, no Litoral Norte. O passageiro era um distribuidor de ovos, cujo carro havia estragado. Jovita, então, encheu o táxi com as caixas de ovos e se largou para a praia.
Quase chegando a Tramandaí, Jovita dormiu na direção e caiu no fosso que divide as pistas da Freeway. Saltando pra lá e pra cá, o táxi virou uma batedeira gigante. Jovita acordou com os solavancos e com os ovos voando para todo o lado. Por sorte, o carro, sem grandes avarias, acabou se acomodando entre umas macegas.
Rebocado para Tramandaí, o táxi ficou preso no pátio do Detran. Só o proprietário poderia retirá-lo. Jovita ligou para o Zé Barriga, contou sobre o ocorrido, deu o endereço do depósito onde o carro estava e voltou para Porto Alegre. Não falou nada sobre os ovos.
Como o acidente foi numa sexta-feira à tarde, só na segunda Zé Barriga conseguiu liberar o veículo. Era verão, fazia muito calor. Depois de pagar todas as taxas, finalmente ele recebeu autorização para retirar o táxi, que havia passado o fim de semana todo no sol.
Já no portão do depósito, podia-se sentir um cheiro estranho no ar. Com a chave na mão, Zé Barriga caminhou apressado em direção ao seu querido veículo. Precisava tirá-lo logo daquele sol. À medida que se aproximava do táxi, o cheiro de podre aumentava.
O carro, como Jovita relatara, não tinha mesmo grandes estragos. Estava apenas muito sujo: as rodas estavam embarradas e os vidros tinham uma estranha gosma amarela. E aquele cheiro de podre aumentava a cada passo que o Zé dava em direção ao seu táxi.
Jovita nunca mais apareceu aqui pelo ponto. Está jurado de morte pelo Zé Barriga.

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4.2.08

Tipos de passageiros
O atrasado. O passageiro atrasado chega ao ponto correndo, olhando para o relógio. Logo que embarca, faz questão de ressaltar que está muito atrasado (caso o taxista não tenha notado). Ele costuma dar sugestões na forma de dirigir:
- Vá pela direita, vá pela esquerda, olhe aquele caminhão lá na frente, vá pra outra pista.
Costuma fazer comentários do tipo:
- Esse teu motorzinho é mil cilindradas?
Mesmo que o taxista corra, fure sinais, pule canteiros, o passageiro atrasado não costuma ter tempo para dar gorjetas.
O desconfiado. Taxistas, em geral, têm péssima reputação. Muitos passageiros, por exemplo, fazem questão de dar o itinerário - o desconfiado sempre acha que o taxista fará turismo com ele. Alguns desconfiados chegam a conferir o lacre do Inmetro no taxímetro. Tem também os que perguntam se o táxi usa gás, se não tem perigo de explodir.
O estressado. Esse tipo de passageiro nem te cumprimenta, já entra no táxi reclamando do clima. O estressado, mesmo não estando ao volante, costuma xingar os outros motoristas - caso o taxista receba uma fechada, o próprio estressado taca a mão na buzina. Baixa o quebra-sol, regula o banco, abre e fecha a janela. Esse tipo de passageiro precisa de movimento. Taxistas calmos os deixam ainda mais estressados.
O confidente. Muitos passageiros sentem-se à vontade para desabafar com taxistas. Há muitos anos, um homem embarcou angustiadíssimo em meu táxi. Precisava contar a alguém o que estava se passando com ele. Tinha saído de uma clínica, na qual sua cunhada havia feito um aborto. Os dois haviam tido um caso e ela engravidara. Depois de anos de casado, não conseguia ter filhos com sua mulher, mas tivera que pedir à cunhada que abortasse.
O fato de falar com uma pessoa que, provavelmente, jamais veria de novo na vida, ajudou-o a desabafar. Dia desses, ele embarcou no meu táxi. Não lembrou de mim. Eu preferi não falar nada. Até porque ele estava em um papo animado com o filho.

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28.1.08

Sexo, drogas e vinho tinto
Minha passageira era uma loira linda, elegante e muito cheirosa. Sua exuberante figura destoava do lugar onde embarcou em meu táxi: uma vila humilde da periferia.
Minhas suspeitas logo se confirmaram. Assim que deu o destino (um hotel de luxo da capital), a garota pegou o telefone e falou com alguém que parecia sua chefe. Disse que havia pego o "produto" exigido pelo cliente e que já estava a caminho do hotel.
Com naturalidade, ela contou-me que seu sonho era ir para a Espanha, onde garotas de programa brasileiras ganham muito bem. O problema é que, lá, teria que comprar o coquetel anti-HIV, que no Brasil recebe de graça.
Deixei-a na porta do belo hotel, onde entrou altiva qual uma rainha. É bom que seu cliente use preservativos de boa qualidade.
Em outra corrida, minha passageira era o quadro da dor. Tinha a cara amarrotada, cabelo pixaim desgrenhado, roupa suja e desalinhada. Trazia no braço uma espécie de trouxa. Se eu não estivesse parado no sinal, preso entre outros carros, certamente, teria fugido dela.
Contou que tinha passado a noite em um motel vagabundo. Seu "cliente", depois de entornar uma garrafa de vinho tinto barato, caiu duro feito uma pedra. Ela, então, fez a limpa no cara. Pegou até as roupas do coitado. Nem o motel ela perdoou: a trouxa incluía toalhas, sabonetes, papel higiênico e até um travesseiro.
Deixei-a no Parque Maurício Sirotsky, onde mora com outros indigentes. Disse que deixaria a trouxa com seu companheiro, que, segundo ela, conseguiria umas boas pedras de crack com aquilo tudo. Ela ficaria só com a carteira do dinheiro. Seu plano era ir para o centro da cidade "baixar as prateleiras da Loja Marisa".
Duas passageiras perigosas. Corridas que eu não gostaria de ter feito, mas que servem como um aviso aos navegantes: a busca pelo prazer tem lá seus riscos.

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21.1.08

O limite da dona Joaninha
A prova dos 100m rasos é a mais aguardada nas competições de atletismo. Atletas de alto nível percorrem a distancia em menos de dez segundos. O recordista dessa prova alcança fama e fortuna. É considerado o homem mais veloz do mundo.
Para dona Joaninha, porém, não interessam fama nem fortuna. Seu objetivo é bem mais modesto. Ela almeja apenas alcançar a tempo o portão do seu prédio.
Quando comecei a trabalhar no meu ponto, há uns 15 anos, dona Joaninha era uma velhinha lépida e serelepe, apesar da idade avançada. Mas o tempo cobra seu preço. Depois da morte do marido e de alguns tombos que lhe maltrataram os ossos, minha idosa passageira já não conta com a agilidade de outrora.
Após atender ao telefone, dirijo-me até o endereço, sem muita pressa. Paro em frente ao prédio e aguardo. Passado algum tempo, ela surge, apoiada em sua inseparável bengala de bambu. Da porta do prédio, dona Joaninha fita o caminho até o portão. Sua aflição é visível. Depois de apertar o botão do timer, ela terá 20 segundos para percorrer os cerca de 10m que a separam das grades.
Ajeito-me melhor no banco do táxi e fico na torcida. Não adianta descer para segurar o portão, ela não gosta. É um desafio pessoal, que ela faz questão de vencer.
Até hoje, dona Joaninha tem se saído bem. Dependendo da direção do vento, ela alcança o portão a tempo, com alguma facilidade. Mas seu desempenho vem piorando. A prótese de quadril e o problema nas juntas a deixam mais lenta a cada dia que passa.
Ela tem a opção de abrir o portão com a chave, mas desconfio que, no dia em que não conseguir vencer sua prova dos 10m rasos, dona Joaninha finalmente dará ouvido aos filhos, que lhe pedem que não saia mais sozinha. Até lá, continuarei torcendo por ela.

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14.1.08

Um táxi tetraplégico
Não existe ninguém mais indeciso do que eu. Tenho uma enorme dificuldade com múltipla escolha. Já contei aqui a trapalhada que fiz ao comprar meus óculos de grau: diante de tantos modelos de armações, acabei levando para casa os óculos da Barbie!
Desde que comprei um carro bicombustível, tenho sofrido na hora de abastecer. Paro o táxi em frente à bomba e o frentista, solícito, sempre pergunta:
- Gasolina ou álcool?
Pronto, danou-se. Existe um cálculo que se faz para ver qual o combustível está mais em conta, mas nunca aprendi. Aliás, tenho dificuldade também com matemática.
Ultimamente, tenho optado, sempre, pelo álcool. Não porque seja mais vantagem, mas para evitar uma segunda pergunta que o frentista sempre faz quando escolho abastecer com gasolina:
- Comum ou aditivada?
Vai álcool, azar!
Atualmente, a sensação da praça é um veículo que roda com quatro tipos de combustíveis: gasolina, álcool, nafta e gás veicular. Com garantia de fábrica e um preço atraente, ele tem sido a opção preferida pelos taxistas. Pensando em consumidores como eu, a montadora equipou o carro com um computador que escolhe qual o combustível usar. Será mesmo?
Dia desses, peguei um passageiro molhado de suor. Antes de embarcar, ele despediu-se de um outro taxista que parecia desolado, encostado em um desses táxis tetracombustível. O passageiro me contou que o carro do meu colega havia pifado. Não estava funcionando com nenhum dos quatro combustíveis aceitos pelo veículo.
Na tentativa de fazer pegar no tranco, o passageiro ainda ajudou a empurrar o carro, mas não adiantou. O jeito foi abandonar a embarcação.
Ando pensando em trocar meu táxi, comprar um carro novo. Estou indeciso, é claro. Vou pensar bem. Não quero acabar levando para casa um carro tetraplégico.

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7.1.08

Uma tragédia anunciada
Tudo começou quando alguns colegas de trabalho resolveram despedir-se de um amigo que estava se aposentando. Decidiram comemorar em um inferninho barato, no Centro de Porto Alegre. Foi lá que meu passageiro acabou conhecendo a mulher que o levaria à loucura.
Apaixonado pela garota de programa, ele voltou ao cabaré dias depois, mas não a encontrou mais. A dona do lugar não sabia dizer exatamente onde a jovem morava. Lembrava apenas que era em uma casa do Bairro Sarandi e que, no seu muro, havia a propaganda de um certo candidato a vereador.
Foi assim que conheci e fiquei amigo desse meu passageiro. Passamos uma tarde inteira à procura da bendita casa com o muro pintado. Acabamos achando. A casa, aliás, não era da garota, mas do namorado dela, que, por sorte, estava fora por uns tempos... Foragido da polícia.
É difícil dizer o que leva um homem maduro, casado, com situação financeira estável a se envolver em uma aventura amorosa desse tipo. O fato é que meu passageiro jogou-se de cabeça. Na esperança de afastá-la do passado, alugou um apartamento, no qual instalou sua amada. Eu o levava até lá todo o santo dia.
O ex-namorado, porém, acabou descobrindo o novo endereço da garota. Invadiu o apartamento no meio da noite. Pegou-a na cama, nos braços do amante. Matou os dois.
Não houve quem chorasse por ela. Apenas um caixão às moscas no centro de uma capela vazia. Em outro cemitério, no entanto, as pessoas se amontoavam para despedir-se do homem que morreu na cama da amante.
Meu passageiro jamais se recuperou do golpe. Visita o túmulo da garota com freqüência. Mesmo sabendo que ela o traía com o porteiro do prédio. O desgraçado que estava na cama com ela naquela noite fatídica.

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28.12.07

Um filho para se orgulhar(do livro)
Não tenho muita paciência para formaturas, mas não poderia recusar o convite do Alemão, meu colega taxista, que estava formando seu filho em Direito. O garoto, orador da turma, fez um discurso memorável, carregado de emoção e agradecimentos ao pai e à mãe, que, infelizmente, morrera antes de vê-lo formado. O Alemão, cheio de orgulho, chorava feito uma criança. Legal.
O momento, por si só emocionante, de um jovem humilde reconhecendo o esforço do pai taxista para que ele estivesse ali, era, ainda, mais tocante para quem conhece a história daquele rapaz. Uma história de amor incondicional, que venceu o abandono, os preconceitos e a falta de grana. A vitória da perseverança.
Aconteceu há 20 anos, em uma corrida como outra qualquer, das tantas que o Alemão fazia por dia. A passageira precisou descer e pediu que meu colega segurasse o seu filho por um instante. Um bebezinho negro, lindo de morrer. A mulher entrou em uma galeria e nunca mais apareceu. A polícia jamais encontrou a mãe desmiolada. O Alemão e sua mulher entraram com o processo de adoção e ficaram com a criança, que, agora, forma-se advogado.
O que parece uma história fantástica, para minha surpresa, não é um caso assim tão incomum. Dia desses, fiquei sabendo de um caso semelhante em que uma mulher deixou seu filho por um instante com o taxista e sumiu. Acionada, depois de quase uma hora, a polícia encontrou a mulher dentro do seu apartamento... dormindo!
Não sou capaz de julgar uma mãe que abandona (ou esquece) um filho. Um juiz de Direito talvez seja. O Alemão disse que seu filho estuda para isso.

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22.12.07

Faça sua história
Entre as atrações de fim de ano da Rede Globo, um programa me chamou a atenção pela originalidade do argumento. Em Faça Sua História, que vai ao ar no próximo dia 27, um taxista (Stepan Nercessian) é o fio condutor da trama. Um “verdadeiro contador de histórias”, este taxista vai narrar de maneira peculiar e bem humorada as histórias de seus passageiros.
A vida das pessoas vista pela ótica do taxista. Uma idéia simples e genial. Como é que eu não pensei nisso antes?!
Tivesse eu o talento de um João Ubaldo Ribeiro, por exemplo, poderia ter escrito minhas próprias histórias. Fosse eu um escritor de ofício, poderia ter bolado um blog, aposto que faria sucesso. Talvez algum jornal se empolgasse com meus relatos e me oferecesse um espaço, onde eu assinaria uma coluna semanal. Não duvido que pudesse até mesmo surgir um convite de alguma editora para publicar um livro. Quem duvida?
Mas agora é tarde, a Rede Globo, em um rasgo de criatividade, teve a brilhante idéia que eu jamais seria capaz de ter. Afinal, essas coisas não são para amadores. Tanto que eu, por exemplo, se tivesse que batizar um programa como esse, procuraria um nome diferente. Algo mais forte, mais sugestivo. Tipo, sei lá...TAXITRAMAS.

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17.12.07

Cego de raiva
Um passageiro embarcou atucanado em meu táxi. Não me cumprimentou, sequer olhou para a minha cara, apenas apontou para frente e ordenou:
- Toca, toca!
Percebendo que o cara não estava para brincadeira, obedeci e toquei em frente. Não tive coragem nem de lhe pedir que colocasse o cinto. Deixa quieto.
Era um cidadão de uns 50 anos, se tanto. Barrigudo, barba por fazer, vestido de forma humilde. Trazia no colo uma mochila surrada. Mesmo não estando muito quente, bufava e suava feito um condenado. Estava visivelmente transtornado.
Entre um resmungo e outro, lá pelas tantas, meu incomodado passageiro deixou escapar um pensamento em voz alta:
- O Casemiro não sabe com quem está lidando! - esbravejou.
Pronto, era isso, meu cliente tinha uma desavença com um tal de Casemiro. Algo me dizia que havia uma arma naquela mochila. Preferi ficar quieto.
Sempre olhando para frente, como se eu não estivesse ao seu lado, o homem começou a desaguar toda a sua fúria em voz alta, como se falasse consigo mesmo:
- Vou te enfiar uma bala nos cornos... Ninguém brinca assim comigo, seu desgraçado... Ladrão, sem-vergonha, tu vais ver com quem tu te metestes, Casemiro...
A essas alturas meu plano era parar o táxi assim que avistasse o primeiro brigadiano e sair correndo. Mas a corrida chegou ao fim sem que aparecesse um agente da lei.
Meu passageiro, então, ordenou que eu parasse o táxi na altura de um bar que havia no outro lado da Avenida Protásio Alves. Pagou a corrida, sem esperar pelo troco, e saiu em disparada.
Ignorar o taxista ao seu lado, tudo bem. O erro daquele homem foi ignorar o movimento de uma Avenida como a Protásio Alves.
Morreu atropelado por um ônibus - para sorte de um certo Casemiro.

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10.12.07

Enquanto não abre o sinal
Câmbio no ponto morto, para economizar embreagem. Trinta segundos, nem isso, para pensar em alguma coisa.
Um volumezinho no som - a passageira também parece gostar de Marisa Monte. Aliás, minha passageira, depois de comunicar o destino da corrida, abriu um livro que parece não estar lendo - conheço um cara que sempre que embarca em um táxi abre um jornal apenas para evitar que o taxista puxe assunto. De qualquer forma, hoje, também não estou a fim de conversa. Melhor assim.
No carro à minha direita, a motorista aproveita os 20 segundos restantes para conferir o visual. Não parece contente: prende o cabelo com as mãos, vira o rosto, olha melhor, solta o cabelo, chega mais perto do retrovisor. Deixa pra lá.
No carro à minha esquerda, um senhor de meia-idade parece fazer um tipo de alongamento para o pescoço. Uma moça ao seu lado fala freneticamente, mas o tiozão não parece preocupado. Segue com os olhos fechados, balançando a cabeça como se o pescoço estivesse desconjuntado. Cada carro, um universo particular.
No meu táxi a passageira fechou o livro. Está vivamente interessada nos malabarismos que um garoto improvisa com quatro limões. Faltando menos de dez segundos, o menino dá por encerrado o show e passa a circular entre os carros com a mão estendida. Minha passageira, então, volta depressa ao seu livro para evitar os olhos do menino pidão. Ela não pretende pagar pelo espetáculo.
As motos vão se acumulando entre os automóveis. Um motoboy mais afoito quase atropela uma menina que distribuía panfletos. Bate-boca. Menos de cinco segundos para abrir, engato a primeira marcha.
O sinal abre e a loucura recomeça. Não consegui pensar em nada para escrever.

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3.12.07

Louco por natureza
Meu colega Álvaro Dedão é louco por natureza. Com um coração de manteiga, ele não pode ver um bichinho em apuros que se derrete todo. É ele quem zela pelos animais que circulam nas redondezas do ponto onde trabalhamos. Dedão é o protetor dos animais. E o que ele mais tem é história para contar.
Tempos atrás, uma sabiá inventou de fazer seu ninho em cima do nosso ponto. Observador atento da vida animal, Dedão notou a dificuldade do pássaro em conseguir gravetos para confeccionar seu ninho. Prontamente, meu colega descabelou a vassoura do nosso ponto de táxi e espalhou as cerdas pelo chão. O bicho não se fez de rogado e usou o farto material. Acabou montando um lindo ninho em tons de azul para abrigar seus ovos.
Mais tarde, descascados os ovos, Dedão passou a trazer de casa, todos os dias, uma bandeja de terra recheada de suculentas minhocas. Os filhotes comeram tanta minhoca que mal conseguiram alçar o primeiro vôo. Feliz com o ninho resistente e a vida mansa, a sabiá já está na terceira ninhada!
Em outro episódio, a Preta, uma cadela vira-latas adotada como mascote pela turma de taxistas do nosso ponto, foi atropelada e ficou mancando. Para ajudar na recuperação do animal, Dedão providenciou uma infusão de cachaça com arnica, para passar no machucado da cadela.
O Beto, cuidador de carros que atua nas proximidades do nosso ponto, ficou com a garrafa, encarregado de esfregar a cachaça na pata machucada do bicho.
Dizem as más línguas, que a Preta não viu nem a cor da "medicação". O Beto, por sua vez, tomou um porre tão grande que não atinava nem passar sua flanelinha nos veículos dos clientes. Mais tarde, para se explicar, ele teria alegado ao Dedão que bebeu o preparado na esperança de aliviar uma terrível dor de garganta que estava sentindo.
Durma-se com um barulho desses!

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26.11.07

Bronzeando o dedo
Minha passageira era uma senhora dos seus 60 anos, por aí. Vestida com uma roupa de festa, no meio da tarde de um dia de semana, não era difícil deduzir que estaria indo para algum baile de terceira idade. Dito e feito. O destino era um clube conhecido da Zona Norte de Porto Alegre. Vamos lá.
Sentada no banco da frente - o que não é habitual - , ela abriu o vidro e colocou o braço na janela. Eu dirigia distraído enquanto ela me contava uma teoria que tinha a respeito do seu marido. Conforme minha passageira, quando seu esposo começava a ouvir boleros em alto volume, estava traindo-a. Devia estar namorando alguma "sirigaita". Como forma de vingança, ela saía para dançar.
De repente, a mulher começou a gritar, pedindo que eu parasse o táxi imediatamente. Levei um susto. Como estava na pista central, andei algumas dezenas de metros até conseguir estacionar. Ela, então, desceu e voltou correndo pela avenida.
Parecia ter perdido alguma coisa. Desci do carro e fui ajudá-la. Passamos um bom tempo procurando, até que, junto ao canteiro central da Avenida Farrapos, finalmente, encontrei a aliança que minha passageira tinha deixado cair. Que sufoco, pensei que a mulher ia ter um troço!
De volta ao táxi, enquanto secava o suor e se recompunha do susto, minha ardilosa passageira contou porque havia deixado cair a jóia. Ela explicou que costuma empurrar a aliança para a ponta do dedo, para que o sol elimine a marca na pele, que a denuncia como mulher casada. Segundo ela, não adianta só tirar a aliança para entrar no salão, é preciso bronzear o dedo também. Vivendo e aprendendo.
Assim, com o sol de novembro fazendo sua parte, finalmente, retomamos a viagem rumo ao tal baile.

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19.11.07

Sua profissão daria um livro?
Quando eu digo que escrevi um livro sobre as coisas que acontecem no meu trabalho, muitos passageiros dizem que também poderiam fazer o mesmo.
Um investigador de polícia contou-me certa vez sobre uma denúncia de espancamento que foram averiguar. Chegando à casa do suspeito, encontraram uma velhinha fazendo tricô. Ao ser perguntada a respeito de gritos que os vizinhos escutavam vir de sua casa, a idosa disse não saber de nada. Quando já estavam saindo, porém, ouviram berros desesperados vindos da cozinha. Algo como "não me bate, socorro, não me bate!". Era o papagaio da velhinha! Meu passageiro disse que foi atrás do antigo proprietário do animal e descobriu, lá sim, um espancador.
Um oficial de Justiça me disse que, certa vez, teve de fazer a penhora de bens de uma sex shop. Disse ter ficado estarrecido com o preço dos produtos. Como exemplo citou uma boneca inflável. O dono da loja explicou-lhe que aquele era um modelo especial, com aquecimento interno, seios avantajados e tal e coisa... Contou também sobre um menino que lhe atendeu dizendo que seu pai não estava. Quando perguntou ao garoto a que horas ele voltava, o menino virou-se para dentro de casa e gritou:
- Pai, o moço quer saber que hora o senhor volta?
Veterinário especialista em reprodução de garanhões. Explicou que utiliza um recipiente especial para colher o sêmen do cavalo. No momento exato em que o animal vai penetrar a égua, meu passageiro descreveu que é necessário pegar o órgão sexual do bicho e colocá-lo dentro deste recipiente. Esta espécie de vagina artificial precisa, inclusive, ser aquecida à temperatura ideal, ou pode queimar o garanhão, inutilizando-o para o sexo. É um trabalho, convenhamos, bastante delicado. Vai que o cavalo nota que está sendo enganado!
E você, caro leitor, o que teria a contar sobre o seu ganha-pão? Será que também daria um livro?

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12.11.07

Liberdade vigiada
O passageiro embarca e pede que eu desça a Avenida Borges de Medeiros. Percorridas algumas quadras, peço que me informe para onde, mais especificamente, está indo. Pensativo, o homem diz que, para ser exato, está indo para a cadeia.
Analiso melhor meu passageiro. Aparenta uns 50 anos, cabelos grisalhos e barba por fazer. Usa uma jaqueta de couro, calça jeans desbotada e óculos escuros - apesar da chuva torrencial que cai na cidade.
Como ele não parecia disposto a revelar o destino da corrida, resolvi entrar na sua brincadeira. Perguntei o que ele fazia, afinal, fora da cadeia. Ainda sério, disse-me que cumpria um tipo de regime semi-aberto às avessas. Explicou que lhe permitiam que deixasse a prisão à noite e aos fins de semana. Falou que já havia "puxado" 28 anos de cadeia e tinha uns tantos ainda pela frente.
Quando lhe questionei sobre o crime que havia cometido para ter sido condenado a tão longa pena, ele, finalmente, sorriu. Disse que, em um momento de fraqueza, havia passado em um concurso público estadual. Desde então, fora "condenado" a trabalhar na Febem, monitorando a ala em que ficam recolhidos os jovens infratores.
Algo melancólico, disse que já viu muito garoto passar pelas grades da instituição em que trabalha. Garotos que cresceram e foram embora, nunca reabilitados. Enquanto ele continua lá, como condenado a viver na cadeia.
Deixei meu passageiro dentro da Fase (atual nome da Febem), em frente a um prédio fortemente gradeado. Foi recebido por um colega, monitor como ele, que lhe abriu o portão. Já atrás das grades, lançou-me um aceno discreto.
Pelo resto do dia, a chuva continuou a cair tão triste quanto aquele aceno.

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6.11.07

Um taxista na Feira do Livro!
Data: 7/11/2007
Hora: 18:00
I Encontro Nacional de Oficinas Literárias
- Publicar é aparecer? Os prêmios, as novas mídias, os suplementos literários
Participante(s):
Fabio Godoh, Marcelo Noah, Flávio Ilha, Mauro Castro e Magali Lippert. Mediação de Baiard
Mediador(res):
Baiard Brocker
Sala: Sala O Arquipélago
Local: Centro Cultural CEEE Erico Verissimo
Área: Encontros com o livro (adulto)

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5.11.07

A praça como ela é
Não preciso inventar, meus passageiros são personagens prontos. Vejamos:
Homem bem-vestido. Diz que trabalha dando palestras de motivação. Tem um irritante tique nervoso: enquanto fala projeta o queixo para a frente e torce o pescoço. Contou sobre casos curiosos do seu trabalho, como uma mulher que surtou em meio a uma palestra, outra que, num instante de silêncio, foi surpreendida cortando as unhas e um outro que roncava com a cabeça caída para trás. Pareceu-me um tanto desmotivado.
Senhora idosa reclamando da empregada. Diz que a mulher nada faz. Assim que chega, pega o cão, sai para a rua e esquece da vida. Minha passageira desconfia que sua funcionária está tendo um caso com o zelador do prédio, que, segundo ela, também vive na rua "batendo perna". Além de não cumprir suas tarefas, a patroa teme que a empregada acabe matando, de exaustão, o cão.
Mulher com o cabelo oxigenado, maquiagem pesada e roupa provocante. Está indo ao hospital visitar a mãe que está internada. Passa a corrida toda refletindo sobre o sentido da vida. Diz que está reavaliando seus hábitos e que pretende dar mais valor às coisas simples. Revelou que possui uma caminhonete cara, que só serve para lhe dar despesas, e uma tevê com tela enorme, a qual nunca tem tempo para assistir. Falou que pretende aproveitar mais a vida antes que acabe como a mãe: usando fraldas em um leito hospitalar.
Casal discutindo a relação. Ela diz que gosta da sogra, mas que o marido precisa internar a mãe em um clínica para tratar o Mal de Alzheimer. O marido diz que é implicância da mulher, só porque a mãe colocou amaciante de roupa na comida que a esposa preparava. Inflexível, ele sustenta que a mãe deve continuar morando com eles até o fim da vida. Vez que outra pedem minha opinião. Sugiro uma terapia de casal.
Em tempos de tarifa defasada, economizo até nos conselhos.

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29.10.07

Um punhado de corridas soltas
Certos dias a literatura me abandona. Olho para meu dia de trabalho e vejo apenas algumas corridas avulsas.
Uma passageira recuperando-se de um câncer de mama. Careca, devido à quimioterapia, ela está indo a uma loja especializada em perucas. Disse que não agüenta mais usar chapéus e lenços. Detalhe: leva junto seu sobrinho, com cabelos além dos ombros, que resolveu doar suas madeixas à tia doente.
Professora de escola infantil, a passageira está envolvida em polêmica com pais de alunos que acham que o teatro pode induzir seus filhos ao homossexualismo (?).
Casal de idosos discutindo entre si. A intolerância de ambos revela a que ponto pode chegar o desgaste de uma relação. Saíram do táxi tão alterados que esqueceram de pagar a corrida. Tive que chamar a dupla à realidade.
Passageira quieta. Deu o destino da corrida e encolheu-se no canto do banco. Arrisquei oferecer-lhe meu livro, o Taxitramas. A partir daí o clima se descontraiu. Ficou com um exemplar para presentear o marido, que é jornalista.
Mulher levando a mãe, cega, para passear no Jardim Botânico. A senhora idosa, que perdeu a visão há aproximadamente um ano, revelou que exercita os sentidos que lhe sobraram em meio aos sons, aos aromas, às texturas e aos sabores do parque. "Esta é a época das Pitangas!"
Jovem jogador de futebol. Um empresário o trouxe da Bahia para tentar a sorte nas categorias de base do Grêmio. Levei-o até o Estádio Olímpico. Ao notar o desinteresse dos garotos que caçavam autógrafos no portão do estádio, meu passageiro sentenciou: "Um dia, eles vão correr atrás de mim".
Histórias a granel, que qualquer taxista colhe em uma hora e tanto de trabalho.

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22.10.07

Verdade e imaginação
Contam que uma menina pegava táxi sempre muito tarde da noite e pedia ao taxista que tocasse para o cemitério da cidade. Chegando lá, a garota entrava pelo portão do cemitério e sumia na escuridão. Os taxistas, depois de alguns minutos aguardando na rua escura, não resistiam e batiam em retirada.
Era uma cidade pequena e a história logo se espalhou. Os motoristas que já a tinham transportado, tratavam de alimentar a imaginação dos que acreditavam que aquela menina fosse, na verdade, uma assombração.
Diziam que a guria era muito magra, que tinha escuras olheiras e lábios sem cor. Houve taxista que disse ter visto, inclusive, algo branco saindo do nariz da garota, como o algodão que usam para tampar as narinas dos mortos. Outros disseram que a menina exalava um forte cheiro de formol, como os cadáveres dissecados.
Um dia, porém, um taxista mais corajoso resolveu aguardar que a menina voltasse. Depois de algum tempo esperando, ela veio até o táxi com o dinheiro da corrida na mão. Explicou que não sabia porque os taxistas da cidade não esperavam, afinal, ela só entrava para pegar o dinheiro com seu pai, que trabalhava como zelador do cemitério e que ali morava.
Houve um caso semelhante aqui em Porto Alegre. Uma mulher pedia ao taxista que esperasse, entrava no cemitério da Santa Casa, no Bairro Azenha, e não voltava mais. Até que certo dia ela foi seguida por um corajoso motorista que descobriu que ela saía por um pequeno portão que dava acesso à Rua Florianópolis, onde a espertinha morava. Tudo para não pagar a corrida.
Se dependessem de taxistas corajosos como eu, casos como esses da menina e da mulher, nunca seriam solucionados. Eu, seguramente, teria dado no pé. Mesmo porque, a verdade nem sempre conta boas histórias. Prefiro a fertilidade da imaginação.

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15.10.07

O caso do táxi que chorava
Os taxistas mais antigos conhecem essa história. Eu a ouvi, dia desses, entre um gole e outro de café, no balcão da padaria da Venâncio Aires - o Ponto do Taxista - , da boca de um velho e calejado "Bandeira 2", que prefere não se identificar.
Aconteceu nos altos do Bairro Glória. Uma mulher em avançado trabalho de parto teria pegado o táxi no meio de uma noite chuvosa. Vendo que não conseguiria chegar a tempo ao hospital, o taxista teria parado o carro e feito o parto ali mesmo, dentro do táxi, na escuridão da Avenida Professor Oscar Pereira.
Quando a criança veio ao mundo, porém, mãe e taxista notaram que algo terrível estava acontecendo. Inerte, o pequeno bebê não chorou, como se esperava que fizesse. Depois de respirar precariamente por alguns minutos, a criança teria morrido nos braços do pobre taxista.
Muito abalado com o episódio, o taxista acabou vendendo o táxi. Meu colega de balcão de padaria disse ter sido o infeliz comprador.
Com olhar baixo, como se procurasse lembranças entre as migalhas de pão, o idoso taxista me contou que, em várias ocasiões, especialmente nas noites de chuva, ouvia um choro de criança dentro daquele táxi. Um choro tênue e agudo, como o de um recém-nascido. Talvez, o choro que faltou naquele fatídico parto. O fenômeno só teria cessado depois que um padre capuchinho deu-lhe uma chupeta benzida em água benta para ser carregada dentro do táxi.
É uma história fantástica. Tenho lá minhas dúvidas se realmente aconteceu. O que posso afirmar é o que vi: mesmo depois de trocar várias vezes de carro, meu colega segue usando um bico pendurado no retrovisor do seu táxi.

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8.10.07

Cadeira elétrica e tsunami
Eu comecei na praça numa época em que, de cada dez táxis, dez eram Fuscas. Um dos principais problemas daquele modelo era a falta de cômodo.
Como não usavam o banco dianteiro, o acento traseiro sofria um desgaste acentuado. Os passageiros sentavam-se sempre no mesmo lugar, formando um buraco no estofamento.
Como a bateria ficava embaixo desse banco, era comum acontecerem acidentes elétricos. O passageiro mais gordinho, ao sentar, pressionava as molas do banco, fazendo com que estas encostassem na bateria, o que causava uma descarga elétrica. Eu mesmo tive alguns passageiros "eletrocutados" no meu Fusca. Uma coisa de louco!
No país do carro popular, o Uno Mille veio substituir o velho Fusca como carro mais usado na praça. Como seu antecessor, é um carro valente, tem suas qualidades, mas também alguns problemas. Um dos mais chatos é a falta de vedação. Basta uma chuva mais forte para alagar o assoalho.
Meu colega Joel me contou que seu velho Uninho acumula água na parte da frente a ponto de os tapetes ficarem boiando. Por isso, em dias de muita chuva, ele só transporta passageiros no banco traseiro.
Durante a chuvarada da semana passada, em determinada corrida, Joel disse que embalou o táxi para subir a Avenida Lucas de Oliveira. No instante que o carro apontou ladeira acima, a inclinação acentuada e a pressão da gravidade jogaram a água toda para a parte de trás do carro.
Desse modo, a passageira, no acento traseiro, foi surpreendida por uma onda arrebentando nos seus tornozelos! Ao final da subida, a mulher tinha água à meia-canela, para desespero do meu colega Joel, que não sabia onde enfiar a cara.
Andar de táxi pode ser uma aventura e tanto.

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1.10.07

A (re) volta do boêmio
O dia mal amanhecia na Capital quando o braço de um violão fez sinal para o meu táxi. Eu descia o Morro da Cruz, sob uma garoa fina, quando avistei três sujeitos fazendo um pagode na calçada. O cara do violão esticou o instrumento em minha direção, sem parar de tocar.
Estacionei e aguardei. Finalizada a música, o violonista e seus colegas do cavaco e do pandeiro embarcaram.
Os três haviam passado a noite tocando em um aniversário. O cara do cavaco, o menos tonto do grupo, pediu que eu tocasse para o Bairro Glória. Precisavam deixar o colega do pandeiro em casa.
O pandeirista, em avançado estado de embriaguez, tinha saído de casa no dia anterior, prometendo à mulher voltar antes da meia-noite.
Imagine!
Chegando em casa, o sujeito do pandeiro custou a abrir o portão. Com a chuva apertando, seus parceiros de boemia limitaram-se a ficar torcendo pelo colega de dentro do táxi. Solidariedade, afinal, tem limites.
Quando, finalmente, conseguiu entrar no pátio, o pandeirista foi surpreendido por seu cachorro. O animal, no intuito de saudá-lo, acabou jogando o dono ao chão.
Com o tombo, o sambista deixou cair um pedaço de churrasco que tinha trazido do aniversário. A intenção era agradar a mulher. Ela, por sinal, a essas horas, devia estar furiosa.
De dentro do táxi, eu e os outros dois músicos assistimos a luta desesperada do pandeirista para recuperar seu pedaço de costela assada. Depois de receber alguns golpes de pandeiro no focinho, o cachorro acabou largando a carne. Vitorioso, o sujeito levantou-se e fez um sinal de positivo aos colegas, liberando-os a seguir viagem. Ufa!
Com o violonista puxando uma plangente interpretação de Saudosa Maloca, finalmente partimos, rumo ao fim da corrida. Depois de tudo, já não era sem tempo.

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24.9.07

O bom cabrito não berra
Um rapaz parou meu táxi e veio na janela explicar a situação. Disse que sua mãe tinha recebido alta hospitalar e precisava ser levada para casa, na cidade de Montenegro. Falou que não tinha conseguido ambulância com a prefeitura. Desesperado, contou que havia vendido um cabrito para, com o dinheiro, pagar um táxi até em casa.
Acontece que o valor conseguido com o animal era inferior ao preço que os táxis estavam lhe cobrando para fazer a viagem. Compadecido com a situação, acabei aceitando fazer o serviço pelo preço do cabrito. O dinheiro era pouco, mas a história era muito boa.
Meus problemas começaram quando vi a paciente a ser transportada. Imaginem uma mulher enorme, gorda, com os dois braços e o tórax engessados. As peças de gesso eram ligadas por um sarrafo a fim de manter a rigidez do conjunto. Um horror.
A muito custo, conseguimos encaixar a mulher dentro do táxi e partimos para Montenegro.
A viagem transcorreu sem maiores problemas. O único senão é que a paciente era uma fumante compulsiva. Como não conseguia levar a mão à boca, o filho foi a viagem toda colocando os cigarros nos lábios da mãe. Só vendo para acreditar.
Chegando a Montenegro, novo problema: o vizinho a quem o rapaz vendera o cabrito havia desistido de ficar com o bicho. Com o negócio desfeito, não havia dinheiro para pagar a corrida. A mulher engessada sugeriu que eu trouxesse o cabrito para a Capital. Disse que poderia vendê-lo aos batuqueiros por uma boa grana.
Agradeci a oferta, mas preferi resolver o caso de outra forma. Deixei meu telefone com o rapaz mediante sua promessa de que me procuraria em Porto Alegre assim que conseguisse o dinheiro. Fechado.
Em vez do cabrito, trouxe o porta-malas cheio de frutas, hortaliças e gratidão.

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19.9.07

Bola pra frente (do livro)
Funcionário de carreira de um banco estatal, Aquiles aderiu a um plano de demissão incentivada. Recebeu uma boa indenização. Depois de analisar alguns investimentos, comprou um táxi. Serviria como fonte de renda ate conseguir uma recolocação no mercado de trabalho.
Contratou dois funcionários, um para o turno do dia e outro para a noite. Comprou um veículo confortável. Seus empregados eram tratados como ele jamais fora. Oferecia gratificações, folgas, churrascos...ele era o patrão que nunca tivera. Oferecia a eles aquilo que sempre reivindicara, sem sucesso, de seus antigos chefes.
Apesar disso, um após o outro, seus empregados o acionavam na justiça do trabalho. Conseguiam indenizações despropositadas, consumindo os lucros que Aquiles amealhava amiúde. A mão-de-obra desqualificada era um problema. A manutenção do veículo acusava sinais de mau uso. Inexperiente, Aquiles era ludibriado nas contas. O negócio ia mal.
Sem conseguir um novo emprego à sua altura, não teve condições de manter o padrão de vida. Seu antigo círculo de amizades ruiu, assim como seu casamento. Entrou em um processo de separação que dilapidou seu patrimônio.
Ao fim e ao cabo, Aquiles analisou a sua situação. Não era de todo má. Sem mulher, emprego e morando de aluguel, ele ainda tinha o táxi e a coragem resignada de engolir o orgulho. Sentou-se ao volante e, depois de decifrar o funcionamento do taxímetro, girou a chave, engatou a primeira marcha e saiu pela Avenida Cavalhada rumo ao seu destino. Vencidos alguns quarteirões de constrangimento, uma pessoa na calçada levantou o braço em sua direção. Aquiles engoliu em seco. Não parou.
Cada coisa a seu tempo.

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17.9.07

Uma corrida molhada
Eu era o único táxi no ponto. A chuva era tanta que eu não conseguia enxergar o outro lado da rua. Tudo que eu queria naquele momento era que o telefone do ponto não tocasse. Queria apenas ficar ali até que passasse aquele dilúvio.
Foi quando um rapaz, com uniforme da Petrobras, entrou apressado no táxi. Pediu que eu tocasse até um posto de combustível que fica próximo ao meu ponto. Explicou que o cachorro do posto havia mordido um mendigo. Disse que o homem estava ferido e precisava ser levado ao Hospital de Pronto Socorro. Valha-me Deus!
Chegando lá, colocaram o indigente no banco traseiro do meu carro às pressas. Ele estava encharcado dos pés à cabeça e tinha uma canela sangrando. Suas roupas imundas estavam ensopadas. A água escorria pela longa cabeleira e pela barba, que, pelo jeito, há muito não via uma tesoura. O mau hálito denunciava a embriaguez.
Apesar de toda a chuva que caía, assim que arranquei o carro, tive que abrir a janela. O rapaz do posto, que foi junto, fez o mesmo com o vidro do seu lado: o cheiro do mendigo era insuportável. Aquele homem não sabia o que era um banho há séculos.
Eu e o rapaz do posto fomos, a corrida toda, com as cabeças praticamente para fora da janela, apesar da chuva. Era impossível respirar dentro do carro. Enquanto isso, o mendigo, embora machucado e encharcado, parecia estar apreciando a viagem.
Dias depois, o mendigo passou pelo meu ponto. Estava sem barba e com o cabelo aparado. A perna não dava sinais de lesão. A passagem pelo pronto-socorro parece ter-lhe feito bem. Já o estofamento do meu táxi nunca mais foi o mesmo.

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10.9.07

O legítimo táxi aéreo
Eu sempre pensei que fosse o taxista mais banana da praça, mas os depoimentos que tenho colhido ultimamente têm me deixado mais tranqüilo. Ao que parece, não sou o único pateta ao volante de um "laranjinha".
Dia desses, atendi ao telefone do ponto e fui buscar a corrida. No caminho, como de costume, entreguei-me a um caloroso debate comigo mesmo. Numa determinada esquina, parei para lembrar para onde mesmo estava indo. Só então, me dei conta de que já havia passado do endereço. Como a rua era contramão, tive de fazer a volta na quadra, passando pelo meu ponto. Então, peguei a passageira e... passei novamente pelo meu ponto. Normal.
Já o meu colega Forquilha disse que parou para pegar um passageiro que trazia uma mala. Antes de embarcar, o homem abriu a porta traseira e acomodou a bagagem. Quando ouviu a porta fechar, Forquilha arrancou o táxi. Só muito mais adiante, quando foi perguntar o itinerário, meu colega percebeu que levava apenas a mala - o passageiro, que pretendia viajar no banco da frente, tinha ficado na calçada.
Mas o pior foi o Carneirinho. Ele me contou que levou um piloto de helicóptero nos fundos do aeroporto Salgado Filho. Na volta, para evitar os quebra-molas, pegou uma pista paralela, mais "lisa e larga". Ele disse que não entendeu porque as pessoas gesticulavam para ele. Carneirinho só percebeu o que estava acontecendo quando olhou pelo retrovisor e viu um avião vindo atrás dele!
Pelo visto, não sou o único taxista a andar com a cabeça nas nuvens. Quando embarcar em um táxi, portanto, fique atento às reações do motorista. Você pode estar a bordo de um legítimo táxi aéreo.

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3.9.07

O gigolô do taxista
Eu estou sendo explorado. Sou um taxista vítima de uma situação que não pode mais continuar. Não é possível que eu trabalhe feito um condenado em meu táxi para dar vida mansa a um desocupado. Isso é uma vergonha.
Já há algum tempo, venho sustentando um sujeitinho infame que se diz escritor. Um folgado, que vive de explorar minha boa-fé. Enquanto eu acordo de madrugada e vou à luta atrás de passageiros, o escritor fica só na moita, pensando abobrinhas, imaginando o que em mim pode virar história. Pode?
Sou eu, o taxista, que encaro sol, chuva, passageiros ranzinzas, mal-intencionados. Sou eu que sou assaltado, que preciso arrumar troco, que sofro nos congestionamentos.
É o taxista que passa por situações embaraçosas. E pra quê? Para servir de inspiração para o escritor? Para, muitas vezes, ser ridicularizado em histórias toscas? Não, isso não é justo.
Estou cansado de ver equipes de reportagens chegando ao meu ponto para entrevistar o autor do Taxitramas. Nessas ocasiões, o taxista tem que parar de trabalhar para dar lugar ao escritor que há em mim. O safado assume o volante com a cara mais deslavada. Posa para fotos, dirige o táxi enquanto o filmam. Enfim, leva toda a fama.
Porto Alegre tem milhares de taxistas. Homens trabalhadores, dedicados, que matam um leão por dia em troca de alguns trocados. Heróis anônimos sem voz, que a imprensa não lembra de procurar.
Pois, hoje, quem escreve esta crônica é o taxista mesmo. O homem por trás do volante quer deixar registrado o seu protesto: estou farto dessa exploração!
Agora, vou postar logo este texto antes que o escritor que há em mim assuma o controle.

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